Descrição de uma planta até ao tempo presente ignorada, da qual tomou conhecimento Antonio Francisco da Costa Cavalleiro, professor na Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, familiar do Santo Ofício, cirurgião do número da real casa de Sua Majestade, que Deus guarde, e cirurgião- mor do regimento de Alcântara e que também foi dos sereníssimos senhores Infantes D. Francisco, e D. Antônio com assistência às suas reais pessoas até ao último instante de seu trânsito.
Bendita e louvada seja a Divina Providência que depois de me ter socorrido com alguns singulares remédios para auxílio de muitos doentes que padeciam doenças crônicas e rebeldes aos comuns remédios que inculcam a arte que indignamente exercito. Há quatro para cinco anos, que no quintal das casas de minha habitação me apareceu uma planta totalmente desconhecida. Digo desconhecida porque nem em livros da botânica nem nos mais inteligentes botânicos, físicos e farmacêuticos que tenho consultado nesta corte, tantos nacionais como estrangeiros, tenho encontrado um que dela tenha notícia.
Aparaceu-me entre umas flores de quaresma e por ver totalmente diferente de todas as mais, conservei-a e concorri para a sua sultura até a declinação. Observei que nasce com duas folhinhas pequeninas muito parecidas no nascimento com as duas primeiras com que aparecem na superficie da terra as das urtigas. São, ao nascer ,de figura oval exceto nos seus pequeninos pés, que são côncavas; as segundas crescem mais e as que se lhe seguem até ao comprimento do través de dois dedos são muito recortadas, dentiladas, finas e macias, de cor verde entre claro e escuro. Aumenta em crescimento até a altura de palmo e meio, copada como o manjericão, acompanhado o tronco (que é de cor amarelada) de dois ou três ramos revestidos de folhas, que sendo no princípio pequenas, aumentam até o comprimento de duas polegadas com alguma semelhança com as folhas de gerânio. Passando para a declinação diminuem tanto que se transmutam em outras tão pequenas como as menores dos poejos. Na parte interna de cada uma se forma uma muito pequena flor branca de uma só folha côncava, com que encobre a semente que, estando sazonada, é redonda, preta e menor que a da mostarda, e se conserva reclusa em um casulo em figura de mitra, de cor de casca de castanha sazonada.
A raíz, que corresponde à haste, é tortuosa e não profunda muito a terra, guarnecida de muitos filamentos, uns maiores, outros menores.
Nasce em Novembro, Dezembro, Janeiro e até Fevereiro. A mais temporã é a que se faz maior. Floresce em Junho; colhesse neste mês e no de Julho, que então se acha sazonada e com espinhos agudíssimos; esse lhe percebe um cheiro aromático e agradável. O seu sabor é de um brando amargo, semelhante ao da melhor Kina-Kina e algum tanto picante no paladar; o mesmo se observa na semente.
Virtudes.
Tenho reconhecido ser vulnerária, por haver consolidado com o seu cozimento feridas contusas e dilaceradas, e também úlceras pustulosas e rebeldes aos remédios da prática.
É singular anti-escorbútico, tomando internamente xícaras do seu cozimento que será mais útil sem açúcar; e bochecho com que tenho visto sarar diversas pessoas com as gengivas bem arruinadas, com úlceras fétidas, vertendo sangue corrupto, que melhoram em poucos dias. Estas são as virtudes que lhe conheço até o presente e as mais que lhe considero como, o ser corroborante do estômago, anti séptico contra vermes, e poderá ser anti-febril; poder-se-ão alcançar com o tempo.
Observações de alguns dos bons efeitos desta virtuosa planta.
1a. Joana Maria, preta mendiga, que é costumada a pedir na porta da Igreja de São Francisco de Paula, pediu-me que lhe ensinasse algum remédio para a boca, que me mostrou com as gengivas lastimosamente ulceradas e vertendo sanguinolência corrupta, com tão mau hálito que era penoso ao olfato de quem o percebia, e alguns dentes que existiam estavam abaladíssimos. Dei-lhe a erva para que a cozesse e tomasse do seu cozimento duas xícaras por dia e bochechos, o que fez e sarou perfeitamente em pouco tempo, não obstante ser idosa, obesa e mal regida.
2a. O mesmo bom sucesso aconteceu a uma cunhada do capitão Jorge Rodrigues, mestre pedreiro das obras do Passo de Sua Majestade, morador em Belém, que depois de padecer bastante tempo sem embargo de vários remédios anti-escobúticos, por ser a moléstia que afligia, como se manisfestava, na escoriação das gengivas, apliquei-lhe, além da dieta, bochechos do cozimento da referida planta e uma chávena de manhã e outra de tarde, com que sarou no decurso de três semanas.
3a. Padeceu por muitos anos Mariana Joaquina, criada da ilustríssima e excelentíssima senhora marquesa de Angeja, de uma queixa de escorbútica a que se administrararam muitos remédios sem efeito. Ultimamente lhe apliquei a dita planta pelo mesmo método, com o que sarou.
4a. Junto à ponte do rio Seco, freguesia de Nossa Senhora de Ajuda chegou a mim uma pobre mulher que ali mora, por nome Maria de São José, aflita com ativas dores nas gengivas e as mostrando corroídas, vertendo sangue, com terrivel cheiro e muito vermelha por muito acre. Dei-lhe uma pequena porção da mesma erva de que usou conforme as mais; pareceu sobrenatural o seu efeito por que em quarenta e oito horas ficou livre de toda a molestia.
5a. Pouco distante do mesmo sítio me pediu Domingos Gonçalves, cozinheiro das reais cozinhas de Sua Majestade que desse para sua mulher Tomásia Maria, daquela erva para lhe servir de remédio a uma queixa das gengivas que muito a molestava. VIsitei-a e observei ser verdadeira a razão da sua moléstia. Dei-lhe a dita planta, para que a usase conforme as mais o que praticou por tempo de quinze dias, com que sarou. Esta observação e as mais que se seguem, foram praticadas este ano de 1780.
6a. Francisco de Paula, assistente com seu pai João Baptista na botica que está imediata ao portão do Hospital Militar de São João de Deus, padeceu por muitos anos de terrível queixa de escorbuto. Esta tão rebelde e molesta, que não só lhe havia ulcerado as gengivas mas também abalado os dentes, de sorte que lhe era muito penoso comer por lhe causar grande moléstia ao mastigar, que o não podia fazer da parte esquerda e da direita com muito custo. Todos os professores que o viram julgavam a dita moléstia insanável por entender era achaque, hereditário de seu pai que também tem padecido do mesmo mal. Porém, a aplicação da sobredita planta na forma praticada com os mais em bochechos e xícaras de seu cozimento para o interno, purificando juntamente os líquidos com as pílulas de minha manuseação, tomadas interpoladamente, sarou em muito pouco tempo, não sem admiração de alguns cirurgiões que o presenciaram. Assim se acha, com boas cores, mais nutrido, triturando com liberdade os alimentos sólidos por se achar com os dentes firmes, mais alvos e as gengivas sólidas.
7a. Padeceu por muitos anos Leonor Maria de São José, mulher de Antonio Patrão, jardineiro no jardim do iIustríssimo e excelentíssimo senhor conde da Ega, moradora em casa no Pateo, chamado do Saldanha. O achaque de escorbuto com considerável ruína nas gengivas de úlceras com matérias fétidas; alguns dentes, que existiam estavam pouco menos, que desarreigados, de cor denegrida. Aplicou-lhe o cirurgião da casa do ilustríssimo e excelentíssimo senhor conde da ponte José de Líbano, seu assistente, a mencionada erva conforme a instrução que lhe dei e em pouco tempo se observou (como eu vi) os dentes fixos, com a cor natural, as gengivas sãs e sem mau hálito.
8a. João José da Silva Pimenta, cirurgião ajudante no regimento de Albuquerque, afirmou -me por escrito, que conservo, que com a referida erva que mandou buscar a minha casa curara duas pessoas do sexo feminino, que havia anos padeciam do horrivel mal de escorbuto com grande estrago nas gengivas, negridão e abalo de dentes. Aplicando-lha pelo mesmo método que lhe declarei, certificou-me que não somente sararam da sobredita enfermidade mas também de outra, que serviria de aumento ou causa daquela que era a falta das visitas mensais, de que logo foram socorridas. Essas acham perfeitamente restabelecidas.
O pequeno número de observações que aqui se descrevem praticadas desde o ano de 1777 até o mês de Novembro de 1780, parece ser suficiente para justificar a excelentíssima virtude que a sobredita planta contém para remediar as mencionadas moléstias por cuja mercê da Divina Providencia devemos dizer:
Deo gratias