Senhor Doutor Domingos Vandelli,
É chegada a ocasião de consultar a V. S., rogar-lhe de novo a sua proteção, pois desejo saber qual desses autores do papel incluso deve ser seguido para o acerto da feitura do sabão. E, se V. S. tiver mais alguém que trate desta matéria, faz-me especial favor em me comunicar, juntamente com as suas advertências sobre esta matéria, pois o meu maior empenho é ver se posso conseguir fazê-lo de azeite de peixe, como a amostra do sabão inglês que remeto a S. Majestade na bocetinha do caixão nº 7.
Confesso a V. S. que me encanta ver como os ingleses dão consistência ao tal sabão, e não só fazem que perca o cheiro do azeite, mas ainda que adquira um que não é desagradável. E agora acho alguma razão no que me disse um castelhano, que na sua pátria havia quem dava 50 mil cruzados pela receita de o fazer.
Dizem-me que já aqui esteve um homem que os sabia fazer, por ter aprendido no tempo em que esteve em Inglaterra; mas nada pude colher do método por qual o fazia, porque o sujeito com quem morava era menino então, e em nada reparava.
Das borras do azeite de oliveiras já o tenho feito algumas vezes, mas levando-me muito tempo em tomar consistência, ou por causa dos calores do país ou por ser feito em muito pequena quantidade, não quis por hora mandar a amostra a S. Majestade.
É certo que o sabão do Real Contrato tem boa consistência, mas peca em lançar de si uma enorme quantidade de sal, de maneira que às vezes chega um pau de duas libras a lançar de si 3 onças de sal no espaço de dois anos; o que é a prova manifesta de não ter sido bem feita a combinação e de não conter as justas proporções de álcali e óleo, sendo certo que o sabão inglês de azeite de peixe nada lança, e o de azeite de oliveiras apenas cria uma côdea salina: o mesmo sucede ao castelhano e ao chamado de veneza.
É verdade que para se lavar a roupa não são precisas tantas perfeições, mas também é verdade que havendo sabão no Real Contrato a 7 vinténs o arrátel, e sendo a importação deste gênero um contrabando, contudo, se compra aos estrangeiros muito sabão, lá a 200 réis e aqui a 320: estão as boticas carregadas dele. E não sei quem assegurou aos nossos boticários que ele não foi feito em vasilhas de cobre.
Da mina de feldspato, o mais que posso informar a V. S. é que da superfície do monte até chegar a ela haverá, pouco mais ou menos, a distância de 4 braças e, daí até as fraldas, coisa de 20 até 30 braças: é que o monte não é íngreme. Que é composto de uma espécie de argila, digo, pedra mole que com a mão se desfaz em areia; que o veio terá de diâmetro dois palmos e meio; que lhe serve de leito uma espécie de argila branca misturada de mica também branca; que esta argila não tem glúten; que é refratária e parece ser mais copiosa do que o feldspato; que na mesma direção da mina corre um veio de quartzo escuro e pouco transparente; que este quartzo está em pedaços do tamanho de 4 palmos, ao que parece; que o feldspato é acompanhado de mica preta e parda, e de outra qualidade de terra argilosa, semeada de mica miudíssima; que entre ele se vêem pedaços de quartzo, como V. S. pode observar em 2 pedaços maiores que vão no meio do barril.
Quanto ao álcali, advirto V. S. que se não fie no que vai no barril nº5, por não ter sido calcinado à minha vista, e que só se regule pelo que vai no frasco e nos outros quatro barris. Que não é só da bananeira que se deve extrair, mas que o anil, vassoura, quaresma e outras muitas plantas merecem ser examinadas, como bem dá a entender a memória de V. S., para o que é preciso que haja gente, e gente que seja dotada de honra e probidade, e despida de avareza e também da pobreza, que são duas tentações das quais o padre Vieira não sabe qual é a maior.
Digo isto porque me vejo inteiramente só, sem casas, sem cavalos, sem barcos, sem companhia, sem subsistência, tirando para pagar a um substituto daquilo mesmo que apenas chegava para o meu parco modo de viver. Porque a Ordem Franca, honra para mim a maior que pode haver, com que a generosa mão de S. Majestade me manda assistir, é o maior motivo que me obriga a ter esse dinheiro para um ídolo de respeito, e a não gastar dele um só real sem ser em coisa já conhecida: V. S. sabe muito bem que para a indagação da natureza é preciso deitar fora muito dinheiro.
Dirá alguém que foi imprudência e loucura minha o comprar para fazer sabão a um ladrão de um droguista a soda a razão de 960 o arrátel: sabendo eu que seu preço é 50 o arrátel de espírito de vinho a 4$000, o de espírito de tormentina a 640 e às vezes a 800 réis para fazer os vernizes; e, contudo, a estas extravagâncias de preço por que comprei estas substâncias para o meu estudo devo a descoberta do álcali da bananeira, e a de já saber dissolver em espírito de tormentina a chamada goma-copal, cuja dissolução dá luzes para muitas descobertas que podem ter outra utilidade maior do que a simples satisfação de conseguir o que não foi possível ao célebre envernizador [Jean-Felix] Watin. Porque das operações da química se pode dizer com acerto o mesmo que Cícero disse das artes: [Etenim] omnes artes, quae ad humanitatem pertinent, habent quoddam commune vinculum, et quasi cognatione quadam [inter] se continentur **
À vista do exposto, rogo a V. S. o favor de fazer presente à Sua Majestade a triste situação em que me acho, a fim de poder desempenhar o honroso despacho para que vivo e viverei eternamente obrigado aos meus Ilustres Mecenatos.
Desejo a V. S. feliz saúde e sou com o mais profundo respeito
De V. S.
Real criado,
João Manso Pereira
Ao 4 de junho de 1794
** E com efeito, todas as artes que se dirigem à humanidade têm um certo vínculo em comum, e estão ligadas entre si quase que por um certo parentesco. (Cícero, Pro Archia, II).