Il.mo Sr. Dr. Domingos Vandelli
Pirauá, 11 de dezembro de 1797
Meu prezadíssimo Mestre, não me tenho descuidado de escrever a V. S. desde que cheguei a este país; sei, contudo, a fortuna e honra de receber letras suas, a última que remeti a V. S. já sei que lhe não foi às mãos, porque a embarcação em que ia, foi aprisionada e, juntamente, uma remessazinha de efeitos que mandava para essa Corte a fim de me virem alguns livros e outras coisas que precisava.
Em julho recebi o Aviso, pelo qual me manda S. M. viajar toda a Capitania de Pernambuco, dando-me um ordenado anual: a V. S. é que devo dar os agradecimentos desta graça porque sei que havia de concorrer com quanto pudesse para isso. Depois que recebi o Aviso, tenho me desembaraçado de todo para melhor me empregar no serviço de S. M. e, se até agora sem salário trabalhava no que podia, com muito maior razão trabalharei agora que, além da minha vocação me chamar a isso, a obrigação me fez um dever. Já estou de viagem para os sertões, a fim de indagar o que há de mineralogia e mais coisas pertencentes à História Natural. Se tenho tardado até agora, é porque umas sezões me impediam [de] viajar e também por lançar de mim todos os mais negócios para ficar inteiramente livre, e encarreguei tudo a meu mano. Ainda que o ordenado anual de que me faz graça S. M. seja pequeno nas circunstâncias atuais de Pernambuco, isto não obsto — a que eu me dispus logo [e] boto a cumprir as ordens que me foram atribuídas, mas devo advertir a V. S. que não posso dar cópia de mim a miúdo, porque a extensão de país que tenho de viajar é grande, e a maior parte deserta, pelo que, se V. S. tiver ocasião de representar isto mesmo ao Il.mo Sr. D. Rodrigo [de Sousa Coutinho], será bom para que ele não pense que é pequeno, porque não devo comer no sossego da minha casa, como faz um Professor de gramática, ou outro qualquer; mas devo viajar, em que infalivelmente hei de pagar a cinco pessoas, que me acompanham, guiando cada uma sua cavalgadura, [e] estas mesmas devem ser alugadas; sem falar no sustento e despesas de quem corre a terra nos lugares que me parecem convenientes, pois que o meu destino não é correr países simplesmente sem fazer as diligências necessárias para o bom êxito da minha comissão. Eu já representei isto mesmo ao Il.mo Sr. D. Rodrigo, mas devo pedir a V. S. que reforce as minhas razões, pois o alvo da ambição não é que me guia sem o interesse da Soberana e o amor da Pátria.
Remeto a V. S. essa carta inclusa para fazer entregar ao amigo frei José da Conceição Veloso, [e,] juntamente, essa Memória sobre a cultura do algodão, frutos que tenho colhido de experiências e observações do tempo em que me tenho empregado neste negócio: a carta vai aberta para que V. S. veja a tal memória e depois a faça entregar ao amigo dr. José Veloso, para ou lê-la à Academia ou fazer o que V. S. e ele [julgar] por melhor determinação. Nela verá duas estampas iluminadas, uma da flor do algodão, outra do gafanhoto cristado, Prillus ovistatus, mais outras quatro espécies de gafanhotos, e uma espécie de percevejo, todos estes animais perseguidores dos algodões; foram pintados por mim mesmo. Também verá V. S. aí desenhada uma máquina de ensacar o algodão, muito cômoda, inventada por mim, em que poupei a mão-de-obra aos agricultores de mais de 20 rs., além de outras vantagens muito interessantes, como na mesma memória pode V. S. ver. Além disso também desenhei os engenhos de açúcar...
Uma das coisas que me é mais necessária é um desenhador e um escrevente; pois que eu não posso absolutamente desempenhar os tais ofícios de compositor, desenhador e escrevente – para desenhador já tenho um em vista. Peço a V. S. encarecidamente, que não perca ocasião, se o tiver oportuna, de falar ao Il.mo Sr. D. Rodrigo a esse respeito, pois com tal incomparavelmente será mais rápido o progresso que farei.
Dos G.de a V. S. como lhe deseja, que é
de V. S.discípulo o mais obrigado,
Manuel Arruda da Câmara