Quatro manuscritos de Domingos Alves Branco Muniz Barreto compõem O feliz clima do Brasil, livro que sintetiza o projeto de pesquisa e edição O gabinete de curiosidades de Domenico Vandelli. A reunião de suas partes constitui um dos resultados do amplo trabalho de pesquisa através de documentos manuscritos e impressos dos séculos XVIII e XIX relacionados às viagens filosóficas introduzidas em Portugal pelo naturalista italiano Domenico Vandelli. Seu empenho na criação de jardins botânicos e do chamado complexo do palácio da Ajuda, em Lisboa, ajudou a promover a transição entre a época dos gabinetes de curiosidades nos séculos XVI e XVII e a dos museus propriamente ditos a partir do final do século XVIII.
O primeiro manuscrito selecionado para compor esta edição está catalogado na Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa (BACL) sob o título Plantas do Certão do Gram Pará, tem sua autoria atribuída a João Pedro Ribeiro e consiste em um conjunto de estampas sobre ervas medicinais. Logo à primeira vista, as ilustrações botânicas sugerem folhas de um herbário. As plantas são vistas isoladamente em seu tamanho original, dando destaque a detalhes centralizados em meio de página. No texto introdutório – Regras pelas quais se devem estampar as ervas medicinais –, o autor deixa clara a intenção de, a despeito das instruções da Academia, representar os vegetais de forma que facilitasse sua identificação por índios no interior das matas. Entretanto, ao consultarmos a pasta desse membro da Academia, ficou evidente que ele nunca havia estado no Brasil, sendo um personagem mais ligado ao estudo de gramática e a revisões e análises de textos para publicação.
Na mesma BACL, um outro manuscrito, Viagem pelas Vilas, Aldeas das Comarcas dos Ilheos, Norte da Capitania da Bahia, sem identificação autoral no documento, cuja primeira frase é ‘O feliz clima do Brasil’, chamou a atenção durante o processo de seleção de textos a serem transcritos. Uma leitura mais atenta durante a revisão paleográfica revelou tratar-se da descrição de uma viagem às vilas e aldeias do litoral da capitania da Bahia. O autor comentava o uso de ilustrações de ervas medicinais, feitas de forma peculiar para os padrões da época, com a intenção de facilitar a identificação pelos índios no interior das matas. As aldeias eram as mesmas do Plantas do Certão do Gram Pará, e as espécies comentadas encontravam-se na ordem exata desse álbum ilustrado. Havia ainda a menção a uma relação de produtos remetidos, cujo manuscrito localizamos na coleção de remessas do Arquivo Histórico do Museu Bocage (AHMB).
A identificação autoral do manuscrito Viagem pelas Vilas, Aldeas das Comarcas dos Ilheos, Norte da Capitania da Bahia – à falta do catálogo da Série Azul, ainda não publicado e utilizado somente para uso na sala de leitores da Biblioteca da Academia das Ciências – foi desvelada a partir de informação do próprio relato: o narrador refere-se ao seu Plano sobre a civilização dos índios do Brazil, principalmente para a capitania da Bahia, o que levou ao nome de Domingos Alves Branco Muniz Barreto, capitão-mor do Regimento de Estremoz.
Outro manuscrito do autor já havia sido consultado, no escopo do projeto, na Fundação Biblioteca Nacional (FBN), sob o nome Notícia da Viagem e jornadas que fez o Capitão Domingos Alves Branco Muniz Barreto entre índios, sublevados nas Vilas, Aldeas das Comarcas dos Ilheos, Norte da Capitania da Bahia, cujos cinco mapas de identificação das aldeias foram localizados e reproduzidos da Seção de Manuscritos da mesma biblioteca.
Além da provável confusão toponímica motivada pela existência de duas localidades com o mesmo nome – Vila de Santarém – no Pará e na Bahia, que terá talvez impedido por mais de duzentos anos a atribuição das estampas de Plantas do Certão do Gram Pará ao seu verdadeiro autor, Muniz Barreto, é também digno de nota o fato de que dois manuscritos do mesmo autor, e que narram a mesma viagem – Viagem pelas Vilas, Aldeas das Comarcas dos Ilheos, Norte da Capitania da Bahia e Notícia da Viagem e Jornadas... – terem sido enviados a dois destinatários diferentes: a Academia das Ciências de Lisboa e a coroa real portuguesa. O cruzamento de tais documentos revela a adequação retórica de Domingos Alves Branco Muniz Barreto a dois públicos distintos.
Esta não é, contudo, uma edição crítica, e tem como objetivo principal facultar o acesso do público em geral ao conteúdo originalmente hermético que o universo dos documentos manuscritos constitui. Assim, a revisão esteve sempre orientada a intervir em favor da fluidez do texto com os recursos gramaticais cabíveis, o que inclui a sua atualização gramatical (concordância, grafia e pontuação) e o uso de colchetes para eventualmente inserir palavras que ajudem o leitor a seguir conectado ao fio condutor e aos rastros dos relatos.
Principais acervos consultados
1 Plantas do Certão do Gram Pará; Viagem pelas Vilas, Aldeas das Comarcas dos Ilheos, Norte da Capitania da Bahia; Remessa 634; e Notícia da viagem e jornadas que fez o Capitão Domingos Alves Branco Muniz Barreto entre índios, sublevados nas Vilas, Aldeas das Comarcas dos Ilheos, Norte da Capitania da Bahia.
2 Série Azul, Ms. 627 da Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa (BACL).
3 Num herbário, são exsicatas as plantas prensadas e coladas a uma folha de papel não alcalino para estudos e catalogação.
4 Série Azul, Ms. 374 / 25, pp. 285-362 da Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa (BACL). Nesta edição adotamos o título atribuído no texto pelo autor: Relação que contém por lembrança a descrição de uma diminuta parte da comarca dos Ilhéus desta capitania da Bahia, por onde viajei, e do que nela observei.
5 Remessa 634 do Arquivo Histórico do Museu Bocage de Lisboa (ANMB).
6 Seção de Manuscritos. Localização 50,1,029 (FBN).