Formato: 9 x 12 cm
111 páginas
1 ilustração
ISBN 978858648822-1
No final do século XVIII, a Memória sobre a reforma dos alambiques alcançou considerável circulação no Brasil e em Portugal.1 Em carta de 3 de janeiro de 1798, d. Rodrigo de Sousa Coutinho a classifica como própria “para se espalhar entre os habitantes do Brasil conhecimentos de que se lhes pudessem seguir vantagens consideráveis”,2 e a remete ao conde de Resende, vice-rei do Brasil, juntamente com outras memórias impressas que tratavam de assuntos como a quina, a cochonilha, o salitre e a canela, entre outros. A proposta do ‘novo risco’ de João Manso evidencia a existência de intenso debate em torno da construção de alambiques e seus aprimoramentos, envolvendo tanto os célebres ilustrados europeus – os franceses Chaptal, Beaume e Rozier, o italiano Domenico Vandelli e o português Bento Sanches Dorta – como os mestres aguardenteiros que, no Brasil, adaptavam para a prática, às vezes a partir de um empirismo rudimentar, concepções próprias ou de outros autores. João Manso desenvolveu seu modelo de alambique inspirado numa imagem estampada na Enciclopédia Britânica em que ele reconheceu o que veio a chamar de alambique de tromba, e cujo uso teria começado no Brasil por volta de 1780, quando um artífice vindo do Porto principiou à fabricá-los, e depois os outros à sua imitação, por causa da grande aceitação que tiveram, por não serem tão sujeitos a bronzear, como os de refego ou goteira. Concebendo a partir daí o seu próprio modelo, João Manso compara cada detalhe do novo projeto com a opinião dos principais autores europeus, citando-os sempre, e, por vezes, discordando quanto a determinadas soluções adotadas por eles: Do pequeno diâmetro do pescoço [da cucúrbita], darei razão noutra parte, já que nisto me aparto do sentimento de Beaume, Chaptal e outros grandes homens. Tal opinião, aliás, lhe valeu a réplica, por parte de Alexandre Vandelli, em Resumo da arte da destilação (Lisboa, 1813): O incansável João Manso Pereira propôs uma reforma nos alambiques; porém, o muito pequeno diâmetro do pescoço e a má posição do bico ou cano fazem parecer desvantajoso o que ele propõe. “O incansável João Manso Pereira”, como a ele se referiu Alexandre Vandelli, passou toda a sua vida no Brasil e foi um ativo correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, mesmo diante da “triste situação em que se achava”3 três anos antes da publicação desta memória, quando se viu “inteiramente só, sem casas, sem cavalos, sem barcos, sem companhia, sem subsistência, tirando para pagar a um substituto daquilo mesmo que apenas chegava para o meu parco modo de viver”,4 chegando a pedir por carta a Domenico Vandelli que interviesse em seu favor junto a Sua Majestade. A transcrição deste livro foi feita a partir de consulta a duas diferentes edições, as quais se encontram, respectivamente, na Biblioteca do Itamaraty e na Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A grafia e a pontuação foram modernizadas e, eventualmente, inseriram-se preposições, artigos e/ou conjunções e palavras entre colchetes para facilitar a compreensão do texto. A maioria das notas de rodapé e algumas citações estão em francês, no original. Para que o leitor possa distingui-las daquelas escritas em português, tais passagens estão em itálico.
1 No ano seguinte à publicação da Memória sobre a reforma dos alambiques, em 1798, João Manso publica uma nova memória, desta vez sobre a melhor forma de se transportar a aguardente para Portugal. O livro trata ainda de outros tipos de aguardente, como as obtidas a partir do milho ou da jabuticaba.
2 Coutinho, 2007.
3 Carta de João Manso Pereira a Domenico Vandelli de 4 de junho de 1794. Ver em www.ogabinetedecuriosidades.com.br.
4 Idem.
Principais acervos consultados