A cultura do linho, planta nativa da Europa ocidental e das regiões mediterrâneas, tem mais de 8.000 anos. Com múltiplas utilidades, suas propriedades a inserem em um ciclo de economia sustentável. O tempo de crescimento das árvores é rápido e o rendimento de sua colheita muito superior ao de plantas equivalentes para a produção de papel, óleos, tecidos, incensos, medicamentos e biocombustível. Em meados do século XIX, o linho-cânhamo foi objeto de uma série de proibições relacionadas ao nível do composto psicotrópico tetrahidrocanabinol (THC) presente em uma das 11 variedades do gênero Canabis sativa.
No século XVIII, o linho-cânhamo, juntamente com o café, a cana-de-açúcar, a quina e o tabaco, foi uma das produções naturais mais comercializadas. Em Portugal, seu emprego e importância eram assunto corrente de cartas e memórias. A Casa Literária do Arco do Cego (1799-1801), projeto editorial de curta duração que teve como um dos principais colaboradores frei José da Conceição Veloso, publicou, entre outros títulos, o Tratado sobre o cânhamo¹, traduzido do francês e cujo autor era Marcandier. Na apresentação da tradução, frei Veloso argumenta que a divulgação da obra ajudaria a desenvolver a produção de linho-cânhamo em Portugal e nas colônias ultramarinas, artigo de primeira necessidade para as potências marítimas, uma vez que dele se fazia a cordoaria utilizada nos navios.
¹ Tratado sobre o cânhamo, composto em francês por Mr. Marcandier, Conselheiro na Eleição de Burges. Traduzido de Ordem de S.A.R. o Príncipe do Brasil, Nosso Senhor em benefício da Agricultura e Marinha do Reino e Domínios Ultramarinos. Lisboa: Oficina da Casa Literária do Arco do Cego, 1799.
Manuel Arruda da Câmara ² – autor desta edição –, era natural do sertão de Pernambuco, e, após terminar seus estudos na Europa, regressou ao Brasil e empreendeu uma viagem mineralógica (1794-1795) pelas capitanias de Pernambuco, Piauí e Paraíba, durante a qual fez inúmeras observações sobre produções naturais. Em carta de 20 de setembro de 1795 a frei Veloso, Arruda lista oito dissertações com diferentes temas sobre os quais pretendia se dedicar nos seguintes anos. O segundo projeto desse rol é o livro agora editado na coleção O gabinete de curiosidades, e que trata das plantas brasileiras que dão linho e são capazes de produzir “cordas, pano de linho, estopa e papel, de que há infinitamente [no Brasil]”.
² CÂMARA, Manuel Arruda da. Carta a frei José da Conceição Veloso de 20 de setembro de 1795. In: Obras reunidas (c. 1752-1811). Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 1981, pp. 102-103.
Atualmente, duas cooperativas em Pernambuco se destacam no uso de técnicas tradicionais, semelhantes àquelas descritas por Manoel Arruda da Câmara, para desenvolver tecidos e papéis a partir das fibras da imbira e do caroá. Estas cooperativas são formadas por mulheres das comunidades de Caroalina (Sertânia) e Conceição das Crioulas (Salgueiro), esta última remanescente de um quilombo do início do século XIX em que seis negras pioneiras sobreviveram da produção e fiação do algodão vendido no antigo distrito Flores da Ribeira do Pajeú, atual município de Flores, citado nesta dissertação.
Para a transcrição deste texto foram utilizados dois exemplares da edição de 1811 que pertencem, respectivamente, ao acervo da Biblioteca Nacional³ e ao da Biblioteca do Jardim Botânico do Rio de Janeiro 4.
3 CÂMARA, Manuel Arruda da. Dissertação sobre as plantas do Brazil que podem dar linhos próprios para muitos usos da sociedade, e suprir a falta do cânhamo. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1810. Localização: Obras Raras, 37, 3, 14 e 14A.
4 CÂMARA, Manuel Arruda da. Dissertação sobre as plantas do Brazil que podem dar linhos próprios para muitos usos da sociedade, e suprir a falta do cânhamo. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1810. Localização: OR 581.981.
Nesta edição, diferentemente da anterior 5, foram atualizadas a grafia e a pontuação. Eventualmente acrescentamos preposições, conjunções e artigos para facilitar a leitura e respeitar as normas gramaticais vigentes. O emprego de colchetes também visa facilitar a leitura, por vezes inserindo, a critério da revisão, palavras em substituição a trechos ilegíveis ou pouco claros. As notas e comentários que integram esta edição foram compostas pelos botânicos Cláudio Nicoletti de Fraga e Mariana Machado Saavedra.
5 CÂMARA, Manuel Arruda da. Obras reunidas (c. 1752-1811). Coligidas e com um estudo biográfico por José Antonio Gonsalves de Mello. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 1982.
Manuel Arruda da Câmara foi um botânico brasileiro que se dedicou ao estudo do uso de plantas nativas do Brasil em substituição de espécies estrangeiras usuais na Europa. Um bom exemplo disso é a obra Dissertação sobre as plantas do Brasil que podem dar linhos próprios para muitos usos da sociedade, e suprir a falta do cânhamo, reeditada agora pela coleção O gabinete de curiosidades.
Como era comum nas viagens filosóficas, Arruda partia da observação do uso popular de diversas fibras vegetais, descrevendo, por vezes, a maneira pela qual os rústicos, por ele assim chamados, obtinham o linho para a produção de redes de pesca, cordoalhas, panos, amarras e, até mesmo, pares de meias. Outras vezes, complementava suas observações com o resultado de experimentos nos quais buscava alternativas para extrair o linho das plantas com maior qualidade e menor custo.
Ao trabalhar com espécies nativas a serem manejadas em áreas naturais, o autor preocupava-se com a manutenção das plantas, enxergando-as como matrizes de uma produção sustentável de linho. Em alguns casos, Arruda orientava para que não se retirassem as plantas do solo, ou mesmo a sua casca, ainda que isso significasse não desenvolver as experiências necessárias à descoberta da capacidade de produção de linho de uma determinada espécie.
Além de sua contribuição no estudo do uso dos vegetais, muitas das diversas plantas descritas por Arruda em Pernambuco foram reconhecidas como espécies novas – poucas espécies brasileiras eram reconhecidas pela ciência à época –, sendo alguns desses nomes utilizados até os dias de hoje, enquanto outros são discutidos à luz do Código Internacional de Botânica, mesmo em trabalhos recentes, como os de Rijckevorsel (2002) e Kirkbride (2007).
Principais acervos consultados